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Exposição do Henfil do Brasil pode ser vista até 15 de janeiro no CCBB

Depois de passar pelas cidades do Rio de Janeiro e Brasília, a mostra continua em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, até dia 15 de janeiro. A exposição, que reúne mais de 400 desenhos, livros, revistas e impressos, pesquisados entre cerca de 15 mil originais de Henrique de Souza Filho, o Henfil, já foi vista por mais de 20 mil paulistanso, até novembro. O público pode conferir os 27 personagens criados pelo desenhista, que marcaram uma época e podem ser considerados uma renovação do desenho humorístico nacional. Preciosidades que integram a exposição são o catálogo da mostra (livro de capa dura, 101 páginas) e três cartazes com diferentes ilustrações, que estão à venda, respectivamente a R$ 45 e R$ 10.

 

O Centro Cultural Banco do Brasil continua apresentando a primeira grande retrospectiva de Henfil - e a primeira mostra de cartum a ser realizada em seu espaço. A exposição HENFIL DO BRASIL - que chegou a São Paulo depois de carreira bem-sucedida no CCBB do Rio de Janeiro e de Brasília - reúne mais de 400 desenhos, livros, revistas e impressos, apresentando a obra de um dos maiores desenhistas brasileiros, o irreverente Henfil. Os desenhos expostos foram pesquisados entre cerca de 15 mil originais guardados pelo filho Ivan Cosenza de Souza, que sugeriu a realização da exposição.

Em quatro meses de pesquisa, os curadores da mostra, a produtora cultural Julia Peregrino e o crítico de arte Paulo Sérgio Duarte selecionaram os mais significativos trabalhos publicados por Henfil (1944-1988) nos jornais mais importantes do seu tempo: Jornal do Brasil, Jornal dos Sports, O Dia, O Sol, A Notícia, Isto É, O Globo, Última Hora, Diário de Minas, O Estado de São Paulo , além do Pasquim , do qual foi um dos fundadores.

A idéia de fazer uma grande exposição do Henfil partiu de Ivan, único filho do cartunista. "O CCBB me convidou para ajudar a conceituar e organizar a mostra", conta a curadora Julia Peregrino, que sugeriu a entrada do crítico de arte Paulo Sérgio Duarte na curadoria. A idéia é desmistificar o cartum como arte menor.  "O cartum é igual a qualquer outra manifestação artística", afirma ela, que, a partir daí, dedicou-se a pesquisar o arquivo do Henfil, na casa de Ivan. "Trabalhamos intensamente vendo todo o material, cerca de 15 mil itens. Fizemos uma primeira seleção, escolhendo os trabalhos que se destacavam por dois critérios: a excelência do desenho e o humor iconoclástico", explica Julia. 

A paixão de Julia Peregrino pelo cartum é antiga, data de 1981, quando trabalhava na Funarte do Rio e montou uma grande exposição para homenagear Picasso, com obras encomendadas a artistas plásticos brasileiros interpretando a Guernica. "Era a forma que arranjamos para comemorar os 100 anos daquele artista, já que não tínhamos orçamento para trazer os trabalhos originais do Picasso. Entre os artistas plásticos, resolvemos incluir alguns cartunistas também.  E a exposição foi um sucesso", diz Julia.  A partir de então, ela resolveu criar um espaço especial destinado ao cartum e a outras manifestações artísticas que não eram exibidas em galerias convencionais. "Montamos exposições de vários mestres do cartum brasileiro, como Nássara, Mendez, J.Carlos, Luiz Sá, Chico Caruso etc", conta ela.

Organizada em seis blocos, HENFIL DO BRASIL promove uma viagem pela cultura brasileira por meio do perfil de cada um dos 27 personagens criados pelo genial cartunista. O primeiro bloco traz a Turma da Caatinga , com os personagens Capitão Zeferino, Bode Orelana, Graúna, Onça Glorinha e Grauninha, uma turma que atirava ironias ferinas contra a censura, a corrupção, o machismo e a desigualdade social. O segundo bloco apresenta os Fradinhos , o Cumprido e o Baixim. Envoltos por um humor cáustico e apimentado, esses dois personagens cruzaram fronteiras e foram comprados por jornais americanos sob o nome de Mad Monks .

No terceiro bloco estarão os desenhos de Ubaldo, o Paranóico , surgido em 1975, quando a cada dia um amigo ou conhecido era levado para interrogatórios no DOI-Codi. Ubaldo trouxe com ele três coadjuvantes: o irmão Ufaldo , o tio Sam e Fonaldo , seu censor exclusivo. Outros Personagens é tema do quarto bloco, dedicado aos personagens que fizeram história nas páginas de esporte, como o Urubu, Bacalhau, Pó de Arroz, Cri-cri e Gato pingado, além do Cabôco Mamadô, O Preto que Ri, Delegado Flores, Zilda-Lib, Ovídio e Tamanduá, entre outros. O quinto bloco da exposição é Outros Desenhos , e os cartuns do Orelhão estarão presentes no sexto e último bloco.

 

HUMOR ÁCIDO

É como se o Brasil não tivesse mudado. Nascidos nas décadas de 60 e 70, os personagens de Henfil continuam despertando a atenção, através do humor ácido e singular do artista que criticava a desigualdade social, a fome, a corrupção, a violência, o racismo, a ausência do estado, o abuso econômico etc. As tiras da Graúna, ainda hoje publicadas em alguns dos principais jornais do país, continuam atraindo novos e jovens admiradores.

Os trabalhos que compõem a exposição HENFIL DO BRASIL revelam a impressionante atualidade do humor de Henfil, ao tratar de problemas que afligiam e ainda afligem a população brasileira. Ao longo de toda a sua carreira, suas colunas em jornais e revistas foram espaços de crítica social e de resistência ao autoritarismo em defesa da democracia e da liberdade de expressão. Foram 25 anos de carreira desde a publicação do primeiro cartum na revista Alterosa , em 1962, até 1987, quando enviou seu último desenho para O Globo , meses antes da sua morte, em janeiro de 1988.

 

CURIOSIDADES

Poucos fãs do esportes sabem, mas os mascotes Urubu, Bacalhau, Cri-cri, Pó-de-Arroz e Gato Pingado - respectivamente, os símbolos dos times de futebol do Flamengo, Vasco, Botafogo, Fluminense e América - surgiram dos traços do cartunista mineiro. Os personagens foram criados na época que Henfil desenhava charges para o Jornal dos Sports .

Cabôco Mamadô, uma das criações mais polêmicas do mineiro, era pano de fundo para que ele criticasse, nas páginas do Pasquim, personalidades que o desagradavam. Mamadô era administrador do "Cemitério de mortos-vivos", onde eram enterrados os desafetos famosos de Henfil. A lista inclui o cantor Roberto Carlos, o deputado da Arena Amaral Neto, o apresentador Flávio Cavalcanti, as escritoras Raquel de Queiroz e Clarice Lispector, entre outros, que viraram defuntos por apoiarem o regime militar ou por se manterem em cima do muro. Um dos funerais mais polêmicos promovido por Mamadô foi o da cantora Elis Regina,enterrada após cantar o Hino Nacional nas Olimpíadas do Exército.

No final de semana anterior ao anúncio da morte do jornalista Vladimir Herzog Ubaldo, Henfil e o crítico musical Tárik de Souza criaram Ubaldo, o paranóico. O personagem, inspirado no clima de medo que dominavam as pessoas que se consideravam de esquerda na época da ditadura, foi então, arquivado e apareceu pela primeira vez em 1976, nas páginas do Pasquim.

 

Livro em edição caprichada, com textos de Ziraldo e Jaguar

Preciosidade que integra a exposição é o catálogo da mostra (vendido a R$ 45,00, também no CCBB do Rio e de Brasília), que recebeu uma edição tão caprichada e bem cuidada que acabou se transformando em uma peça valiosa, um livro de capa dura, com 101 páginas, recheado com os principais cartuns de Henfil, além de textos.

"O catálogo é a memória não só da exposição em si, como do trabalho do artista que muitas vezes não tem oportunidade de ter sua obra registrada", comenta Julia Peregrino , complementando que procurou "reproduzir o máximo de trabalhos apresentados na exposição, acompanhados de textos de especialistas, como o jornalista e analista político Wilson Figueiredo, o pesquisador e caricaturista Cássio Loredano e os cartunistas Jaguar e Ziraldo, que conviveram com Henfil, além de uma cronologia do artista. Também estarão à venda (a R$ 10,00) três modelos de pôsteres com desenhos de Henfil.

Sobre Henfil, o cartunista Jaguar também conta suas histórias no prefácio do livro: "Sendo do mesmo ramo, eu via o sacana do Henfil fazer uma charge num passe de mágica, como Salieri, ouvindo Mozart, morrendo de inveja".

O cartunista e escritor Ziraldo lembra da época em que foi pedir a Millôr Fernandes que fizesse o prefácio do primeiro livro de Henfil e recebeu uma resposta negativa. Também recorda da época em que Nelson Rodrigues mandou fechar o Cartum JS (suplemento semanal encartado no Jornal dos Sports), que Ziraldo havia fundado e onde Henfil se lançou como chargista político.

"Depois de Henfil, não foi mais possível ignorar, o Brasil era também o Fradinho pequeno, perverso, racista, inescrupuloso. O Henfil tirou debaixo do tapete o que pra lá tínhamos varrido zelosamente a nossa História inteira", escreve Cássio Loredano, caricaturista e pesquisador, nas páginas do catálogo.

 

Vista à exposição e oficina Rabisco Falante - Programa Educativo

O Programa Educativo do CCBB oferece visita interativa (agendada previamente e com atividade prática na oficina Rabisco Falante ) à exposição Henfil do Brasil , de terça a sábado às 9h30, 11h30, 12h, 14h, 15h30, 17h, 19h30. Com público jovem e adulto, a proposta da visita é despertar o olhar para questões da linguagem e dos temas explorados pelo artista. Já na visita com o publico infantil, o objetivo é atiçar a curiosidade das crianças para a simplicidade e a expressividade do traço do artista. Na oficina, cada participante criará seu próprio personagem. No final, terá produzido uma pequena tira.

 

SOBRE HENFIL

Henrique de Souza Filho ou Henfil, como era conhecido o desenhista jornalista e escritor, nasceu em 5 de fevereiro de 1944, em Minas Gerais (Ribeirão das Neves). Morreu no Rio de janeiro, em 4 de janeiro de 1988, com 43 anos. Era hemofílico e contraiu AIDS através de uma transfusão de sangue. Estudou dois anos de sociologia, trabalhou no comércio e chegou a ser boy de uma agência de publicidade. No início dos anos 60, começou a trabalhar com ilustração e produção de histórias em quadrinhos. A partir de 1969, no Pasquim , tornou-se conhecido em todo o país. Na mesma época trabalhava no Jornal do Brasil. Em 1970 lançou a revista Os Fradinhos . Seus personagens, então, atingiram um nível de popularidade jamais experimentado no Brasil.

A carreira de cartunista do Henfil teve início em 1964, na Revista Alterosa de Belo Horizonte. Em 1965, começou a fazer caricatura política para o Diário de Minas; em 1967 fez charges esportivas para o Jornal dos Sports do Rio de Janeiro. Foi colaborador das revistas Visão, Realidade, Placar e Cruzeiro. Trabalhou com várias mídias: escreveu uma peça de teatro, A Revista do Henfil (em co-autoria com Oswaldo Mendes); escreveu, dirigiu e atuou no filme Tanga - Deu no New York Times ; criou o quadro TV Homem , no programa TV Mulher , da Globo. Como escritor, publicou sete livros: Diário de um Cucaracha, Hiroxima, meu Amor (1976), Dez em Humor (coletiva, em 1984), Diretas Já (1984) e Henfil na China, Fradim de Libertação (1984), Como se faz Humor Político (1984). Henfil destacou-se, também, pela sua participação na política do país. Foi um dos maiores críticos da ditadura, lutou pela democratização do país, pela anistia dos presos políticos e pelas Diretas Já.

 

Para roteiro:

HENFIL DO BRASIL

Até 15 de janeiro de 2006 . De terça-feira a domingo das 10 às 21 horas. Curadoria - Julia Peregrino e Paulo Sergio Duarte. Patrocínio e Realização - Centro Cultural Banco do Brasil. Consultoria - Ivan Cosenza de Souza. Assistente de Curadoria e Textos - Anabela Paiva. Produção - FazerArte. Design de Montagem - Glaucio Campelo e Julia Peregrino. Livro vendido a R$ 45,00, pôster a R$ 10. Entrada franca .

Centro Cultural Banco do Brasil - Rua Álvares Penteado, 112 - Centro (próximo às estações Sé e São Bento do Metrô). Informações - (11) 3113-3600. www.bb.com.br/cultura .

Assessoria de Imprensa - CCBB

Camila do Val - 3113-3623

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