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CIA DO LATÃO ESTRÉIA O CÍRCULO DE GIZ
CAUCASIANO NO SESC AVENIDA PAULISTA

Espetáculo da Companhia do Latão, considerado um dos mais importantes
da atualidade a trabalhar a obra do dramaturgo alemão Bertold Brecht, estréia
em São Paulo após temporada de sucesso no Rio de Janeiro. Com encenação
de Sérgio de Carvalho, a montagem usa a tradução de Manuel Bandeira e
reúne atores de conceituados grupos da cena teatral do Rio e de São Paulo.
O CÍRCULO DE GIZ CAUCASIANO já possui uma extensa agenda para
2007 com apresentações em sete capitais brasileiras

“Obra-prima do teatro moderno.” Assim o poeta e tradutor Manuel Bandeira definiu O CÍRCULO DE GIZ CAUCASIANO, de Bertolt Brecht (1898-1956), ao verter para o português um dos mais consagrados textos do dramaturgo alemão. Fora dos palcos há tempos, a peça – sob a tradução de Bandeira, versão que desde 1963 não era encenada – foi a escolhida pela Companhia do Latão para homenagear os 50 anos de morte de Brecht. Após uma temporada de sucesso no Rio de Janeiro, o espetáculo, dirigido por Sérgio de Carvalho, estréia no próximo dia 2 de dezembro, sábado, às 20 horas, no Espaço Décimo Segundo Andar da UNIDADE PROVISÓRIA SESC AVENIDA PAULISTA.

Além dos atores que formam a base do coletivo da Companhia do Latão, o diretor Sérgio de Carvalho (professor de Dramaturgia e Crítica na Universidade de São Paulo – USP) convidou para O CÍRCULO DE GIZ CAUCASIANO artistas oriundos de diversos grupos para compor o elenco. Ao lado de colaboradores como Ney Piacentini e Helena Albergaria (desde a fundação colaboradores do Latão) e do diretor musical Martin Eikmeier, estão no elenco Carlota Joaquina e Luís Mármora, da Companhia São Jorge de Variedades; Rogério Bandeira, sócio-fundador do Galpão do Folias; Rodrigo Bolzan, colaborador do Núcleo Argonautas; Cibele Jácome, do Teatro do Pequeno Gesto; e os atores Sidney Ferreira, Mafá Nogueira e Deborah Lobo.

Uma curiosidade: no Berliner Ensemble, teatro fundado por Brecht, a montagem de O CÍRCULO DE GIZ CAUCASIANO previa elenco de 50 atores. Na montagem da Companhia do Latão 11 atores estão em cena.

Clássico do Teatro Moderno
Escrita por Bertolt Brecht entre 1944 e 1945, durante o exílio nos Estados Unidos, O CÍRCULO DE GIZ CAUCASIANO (Der Kaukasische Kreidekreis) é uma peça de narrativas concêntricas com um prólogo em que um grupo de camponeses se reúne para discutir o direito à propriedade. O espetáculo é uma encenação em tom de fábula sobre Grusha, uma empregada da corte que toma conta de uma criança abandonada pela mãe durante uma revolução palaciana e a conduz por regiões variadas, além da farsa do beberrão juiz Azdak, cuja desconformidade patética com a lei o aproxima da justiça.

Tendo como pano de fundo a discussão sobre a disputa global, o espetáculo mostra duas fazendas coletivas, que disputam a posse de um vale fértil. Para resolver a questão elas recorrem a um bardo local, que lhes conta a história do círculo de giz na Geórgia. Os dois papéis cruciais da montagem, segundo o diretor Sérgio de Carvalho, são Grusha e o juiz Azdak. “Eles são interpretados pela Helena e pelo Ney, também como forma de homenagear esses dois atores que desde o início estão na trajetória da companhia”, situa o diretor. Para ele, a forma “em fuga” de uma peça feita de peças-dentro-da-peça imprime um sentimento de exílio nesse que é um dos textos mais radicalmente épicos de Brecht e que há muitos anos não é encenado no Brasil. “Do ponto de vista temático, a escolha do espetáculo se liga a uma vontade de discutir a questão – ainda explosiva no Brasil – do ‘direito à terra’”, explica Sérgio.

O original de Brecht é um texto em forma de parábola que têm como fundo um mundo rural e arcaico, contraposto às práticas mais avançadas do capitalismo mundial. Brecht imaginou a personagem central, Grusha, como uma figura trágica, que duela com a terrível tentação de ser boa num mundo em ruínas. Seu contraponto patético é o juiz Azdak, que se aproxima da justiça por vias muitíssimo tortas. O espetáculo representa, assim, uma continuidade da pesquisa em teatro dialético realizada pela Companhia do Latão.

A Direção de Sérgio de Carvalho
“Essa montagem tem o objetivo de repensar, em termos do Brasil atual, o legado artístico de Bertolt Brecht”, pontua o encenador Sérgio de Carvalho. Sérgio é considerado um dos mais importantes diretores de sua geração e a Companhia do Latão uma das mais vigorosas no teatro dialético proposto por Brecht. Fundado em São Paulo em 1996, o grupo inicia com a montagem de O CÍRCULO DE GIZ CAUCASIANO uma série de projetos para marcar seus 10 anos de atividades. “Recentemente, com a conquista de alguns prêmios de realização, iniciamos a produção de sete DVDs didáticos, registros e documentários, além de dois livros, um de teoria e outros de peças da companhia, todos em processo de elaboração”, destaca Sérgio.

Em fevereiro de 2007, o diretor vai a Berlim (Alemanha) participar de um encontro promovido pela principal organização alemã ligada à obra de Brecht, o Fórum Literário da Brecht Haus. A participação de Sérgio de Carvalho (reconhecido hoje como um dos principais pesquisadores de Brecht no continente sul-americano) na Brecht Tage 2007 será uma apresentação teórica sobre trabalho da Companhia do Latão com teatro dialético no contexto do Brasil atual.

“Curiosamente, esta será a segunda montagem que realizamos da obra de Brecht depois do Ensaio sobre o Latão, mas temos a fama de grupo brechtiano”, observa Sérgio de Carvalho. Recentemente, vem se ampliando a repercussão crítica internacional acerca do trabalho desenvolvido pela Companhia do Latão. O ensaio La Companhia do Latão y la Revitalización Del Método Brechtiano, do pesquisador da Universidade Católica de Washington, Mario Rojas, foi publicado na RTC/ Revista de Teatro – CELCIT (Creación e Investigación Teatral) e na Latin American Theatre Review. O grupo também foi analisado na revista alemã Theater der Zeit e na publicação Argentina Teatro Al Sur. Em junho de 2002 a Companhia do Latão participou da XXV edição do Festival Internacional de Teatro (Fitei), em Portugal, filiando-se ao projeto Filoktetes, cujas primeiras reuniões ocorreram em julho de 2002 no Centro Europeu de Cultura, em Delphis, na Grécia.

Curta-metragem vira prólogo do espetáculo
A proposta de unir teatro e reflexão sobre os caminhos da sociedade na pesquisa cênica, como propõe Brecht, foi o que orientou também a opção pela montagem de O CÍRCULO DE GIZ CAUCASIANO. “Trata-se de uma peça especial. É talvez a peça mais épica de Brecht e, ao mesmo tempo, é aquela em que ele apresenta uma espécie de confiança e otimismo, de que é possível transformar a realidade. De modo geral, o teatro brechtiano é de contradição e de teor negativo”, explica Sérgio, completando que na peça, Brecht faz as coisas darem certo a partir de um pano de fundo terrível.

No espetáculo Brecht debate a função da terra na sociedade. Para aprofundar essa questão tanto política quanto esteticamente, foram consultados documentos originais de Brecht inéditos no Brasil. A encenação optou por atualizar o prólogo da peça através de um filme de curta-metragem feito com jovens artistas camponeses do grupo Filhos da Mãe Terra, do assentamento Carlos Lamarca do MST. Música, teatro e cinema se integram para narrar uma das mais belas histórias imaginadas pelo poeta alemão.

Sobre a Companhia do Latão
A Companhia do Latão é um grupo teatral de São Paulo, que desenvolve desde julho de 1997 uma pesquisa artística voltada para a reflexão crítica sobre a sociedade atual. Esse trabalho inclui a encenação de espetáculos, a edição da revista Vintém bem como uma série de experimentos cênicos, musicais e teorias. A origem do grupo está ligada à ocupação do Teatro de Arena Eugênio Kusnet, da Funarte, em São Paulo, entre 1997 e 1998, quando se consolida seu estudo da obra de Bertolt Brecht como um modelo para o teatro épico-dialético no Brasil. Desde então, o grupo produz dramaturgia própria, interessada na realidade histórica do país bem como na crítica política das formas estéticas de representação. Suas montagens são "peças-processo" sobre movimentos contraditórios de uma sociedade imersa nas determinações do capitalismo mundial.

Os espetáculos da Companhia do Latão procuram evidenciar sua construção por um jogo teatral claro, com regras expostas. Trabalham com a relação direta entre atores e público, de uma forma anti-ilusionista, desprovida de maiores efeitos cenográficos. O espaço da ficção depende da colaboração imaginária do espectador, sendo construído como experiência compartilhada. Os primeiros trabalhos da Cia foram adaptações de obras de Brecht. O conjunto de textos teóricos de A Compra do Latão deu origem ao espetáculo Ensaio sobre o Latão (1997). E o texto Santa Joana dos Matadouros recebeu uma encenação livre, em parte itinerante pelo espaço teatral. Foram projetos que deram seqüência a uma pesquisa iniciada em 1996, com a montagem de A Morte de Danton, de Büchner, na livre versão intitulada Ensaio para Danton, que, dirigida por Sérgio de Carvalho, aproximou alguns dos artistas que formariam o grupo no ano seguinte.

O primeiro trabalho inteiramente autoral, feito com base no método de dramaturgia coletiva da Cia, foi O Nome do Sujeito, texto de 1998, com versão final dos diretores e dramaturgos Sérgio de Carvalho e Márcio Marciano, e publicado no ano seguinte. Essa coletivização da escrita assumiu caminhos muito radicais no espetáculo A Comédia do Trabalho, que estreou em 2000. Na medida em que procura trabalhar suas construções teatrais na perspectiva da crítica à mercantilização da cultura e da transformação da sociedade, a Companhia do Latão atraiu o interesse de diversos grupos politizados do país e passou a realizar, desde 1999, intercâmbios com platéias ligadas a movimentos sociais organizados, como o MST, sindicatos, frentes estudantis, além de dialogar com cientistas políticos ligados à universidade. Entre 2001 e 2003 o grupo ocupou o Teatro Cacilda Becker, no Bairro da Lapa (SP), onde produziu mais espetáculos baseados em textos próprios, como Auto dos Bons Tratos e O Mercado do Gozo.

Em 2004 apresenta Equívocos Colecionados, a partir da obra de Heiner Muller e Visões Siamesas, criação original épica inspirada vagamente num conto do escritor Machado de Assis. O trabalho do grupo é uma mostra viva da possibilidade de utilização contemporânea do pensamento de Marx e Engels como ferramenta estética.

 

Sobre Sérgio de Carvalho
Sérgio de Carvalho é dramaturgo e diretor da Companhia do Latão. É também professor de Dramaturgia e Crítica da Universidade de São Paulo. Foi professor de Teoria do Teatro da Universidade Estadual de Campinas e jornalista colaborador de vários jornais do Brasil. Dirigiu e escreveu, em parceria com Márcio Marciano, diversas peças, entre as quais O Nome do Sujeito, A Comédia do Trabalho, Auto dos Bons Tratos e Visões Siamesas. É mestre em Artes e doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo.

 

Para Roteiro:
O CÍRCULO DE GIZ CAUCASIANO – Estréia dia 2 de dezembro, sábado, às 20 horas, no Espaço Décimo Segundo Andar da UNIDADE PROVISÓRIA SESC AVENIDA PAULISTA. Texto – Bertold Brecht. Tradução – Manuel Bandeira. Direção – Sérgio de Carvalho. Elenco – Ney Piencentini, Helena Albergaria, Martin Eikmeier, Carlota Joaquina, Luis Mármora, Rogério Bandeira, Rodrigo Bolzan, Sidney Ferreira, Mafá Nogueira, Deborah Lobo e Cibele Jácome. Execução Musical – Mafá Nogueira e Martin Eikmeier. Figurinos – Fábio Namatame. Iluminação – Fábio Retti. Assistente de Direção – Daniele Ricieri. Preparação Vocal – Sandra Ximenez. Artesão dos Bonecos – Bartô. Adereços e Objetos de Cena – FCR Produções Artísticas Ltda. Equipe de Criação do vídeo do Prólogo (gravado no assentamento Carlos Lamarca do MST, em Sarapuí, São Paulo, entre 7 e 18 de junho de 2006). Direção e Montagem – Caetano Gotardo, Diogo Noventa e Marco Dutra. Direção de Fotografia – Matheus Rocha. Técnico de Som Direto – Luiz Gustavo Cruz. Participação Especial – Grupo Filhos da Mãe Terra.

Duração – 180 minutos com intervalo de 15 minutos. Espetáculo recomendável para maiores de 16 anos. Temporada – Sextas-feiras, sábados e domingos às 20 horas. Ingressos – R$ 15,00; R$ 10,00 (usuário matriculado); R$ 7,50 (estudante com carteirinha, aposentado, trabalhador no comércio e serviços matriculado e dependentes). Até 21 de janeiro (entre os dias 23 e 31 de dezembro não haverá apresentações).

UNIDADE PROVISÓRIA SESC AVENIDA PAULISTA – Avenida Paulista, 119 – Estação Brigadeiro – Fone: (11) 3179-3700. Acesso para deficientes físicos. Bilheteria – De terça a sexta das 9 às 22 horas e sábados, domingos e feriados das 10 às 19 horas (ingressos à venda em todas as unidades do SESC). Capacidade do Espaço Décimo Segundo Andar – 70 lugares. www.sescsp.org.br

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