Rio Grande do Norte monta espetáculo dirigido pelo Boi Garantido, de Parintins, em homenagem a Câmara Cascudo
A 1 a Mostra de Cultura Popular na Educação, realizada pelo Governo do Rio Grande do Norte, reunirá 3.300 estudantes e os mais tradicionais grupos folclóricos da região, sob a direção geral de Fred Góes (coordenador do Boi Garantido, de Parintins). O mamulengueiro Chico Daniel e mestre do boi Manuel Marinheiro estão entre os artistas da comunidade que se apresentarão com seus grupos. Em um palco de 22 metros, com imensos bonecos articulados, 500 canhões de lâmpadas, gelo seco, fumaça e fogos frios, eles encenarão uma releitura do conto A Princesa de Bambuluá, de Luís da Câmara Cascudo
Um grande espetáculo que une arte e educação será apresentado em Natal, no final de novembro. Nos dias 28, 29 e 30 , o Ginásio Machadinho será palco de um evento que celebra a cultura popular do Rio Grande do Norte e promove o resgate e a valorização de seu folclore. Resultado final do projeto Nossa Terra Nossa Gente , da Secretaria da Educação, Cultura e Desportos, a 1 ª Mostra de Cultura Popular na Educação - passo importante para a inserção da cultura popular e do folclore regional na grade curricular de ensino - vai colocar em cena 3.300 alunos (de escolas estaduais das 50 cidades com os mais baixos índices de desenvolvimento humano daquele Estado), que encenarão A Princesa de Bambuluá , conto de Luís da Câmara Cascudo, escritor potiguar, um dos mais importantes estudiosos do folclore nacional. A história será contada por meio das 10 principais danças folclóricas do Estado.
Grupos tradicionais do Rio Grande do Norte ganharam destaque no evento, como o Boi Calemba, formado por moradores de Natal e comandado por mestre Manoel Marinheiro, 72 anos, grande conhecedor da cultura do boi do Nordeste. Recentemente, ele recebeu o título de Patrimônio Imaterial do Brasil, concedido pelo Ministério da Cultura, e teve as cantigas do seu grupo registradas no CD Canta Meu Boi , projeto da Ong Terramar, com patrocínio da Petrobras.
A mostra também priorizou a participação de artistas da comunidade. O mais célebre representante do teatro de mamulengos do Estado, Chico Daniel, será o narrador do conto A Princesa de Bambuluá . Residente em Natal, aprendeu a arte do teatro de bonecos com o pai e se tornou um dos maiores mamulengueiros do Brasil, realizando apresentações em vários Estados e também em Portugal. O reconhecimento não tirou a simplicidade do artista, que ainda mora na pequena comunidade de Felipe Camarão, como Manuel Marinheiro.
"É um programa de caráter educativo, de valorização da cultura local, cujo objetivo final é aumentar a auto-estima do cidadão potiguar", explica a professora Isaura Amélia, doutora em Sociologia da Educação em Salamanca, Espanha, e uma das idealizadoras do projeto, com 25 anos de carreira acadêmica. "Natal devia uma homenagem a Câmara Cascudo", diz a professora, hoje secretária adjunta da Educação e que traz na bagagem o trabalho no 1º Auto da Liberdade, em Mossoró, e o primeiro Auto de Natal na capital. A mostra, inserida no Nossa Terra Nossa Gente, tem apoio do Ministério da Educação, a partir da linha de financiamento do Projeto Alvorada.
Como aconteceu em Mossoró (distante 277 km de Natal), que convidou Gabriel Villela para dirigir o Auto da Liberdade, em setembro passado, Natal buscou em Parintins (AM) o músico Fred Góes para contribuir com sua experiência em teatro de arena. Instalado na cidade, com uma equipe de 6 pessoas, o coordenador do grupo Boi Garantido terá o desafio de coordenar, em 2 horas de espetáculo, o elenco de 3.300 estudantes e os grupos tradicionais da região, apresentando as dez principais danças folclóricas do Rio Grande do Norte.
Sobre o espetáculo
A idéia de convidar Fred Góes partiu da professora Isaura Amélia. "O Boi Garantido desenvolveu uma forma prática de trabalho que inclui grande participação popular. Teatro de arena abre a possibilidade de trabalhar com 3 mil pessoas", explica ela. Para Isaura Amélia, levar Parintins para Natal é um processo de intercâmbio e de transferência de tecnologia. "O importante será a metodologia de trabalho de Fred Góes, que conceberá o espetáculo respeitando os traços culturais do Rio Grande do Norte."
"A proposta do espetáculo - que será a festa do desencantamento da princesa de Bambuluá - é ligar os elementos do folclore regional com o conto de Bambuluá ", explica Fred Góes. De acordo com ele, a mostra é um painel representativo da cultura popular do Rio Grande do Norte. "Toda a história folclórica desse Estado está representada nesses grupos de dança", comenta.
De acordo com ele, o maior desafio será colocar em apresentações de 10 a 12 minutos cerca de 300 estudantes que irão compor cada um dos grupos de danças folclóricas. "Trabalhar nesse projeto é entrar em contato com a origem da festa de Parintins, porque o boi do folclore nordestino foi levado para o norte, para o Amazonas, junto com a migração da borracha", ressalta o diretor.
Sinopse de A Princesa de Bambuluá
História que pertence ao universo popular potiguar, A Princesa de Bambuluá chegou ao conhecimento de Luís da Câmara Cascudo através de Francisco Ildefonso, o Chico Preto, um pescador da Praia da Areia Preta. Narra a libertação de uma princesa aprisionada em uma gruta por um feitiço. Salva por João, que por três dias suportou calado a surra que recebia de três vultos mascarados, a princesa decide se casar com seu salvador. Para tanto, João receberia lições de uma professora durante cinco anos para aprender tudo o que fosse necessário a um príncipe.
Admirada com a inteligência de João, a professora trama para que ele se case com sua filha e arma uma cilada: a cada visita anual da princesa, dava a ele um copo de vinho com dormideira. Durante cinco anos, a princesa encontrou seu noivo dormindo e, assim, desistiu do casamento. João percebeu a armadilha, e fugiu à procura do reino de Bambuluá. Chegou a tempo de impedir o casamento da princesa com outro pretendente, casando-se com ela. O espetáculo é a festa de casamento de João com a princesa.
A encenação do conto A Princesa de Bambuluá terá a narração de Chico Daniel, conhecido na região por seu trabalho com o mamulengo (teatro de bonecos). O espetáculo começa com a entrada de Chico Daniel dentro de uma ema de 9 metros de altura - um dos símbolos da origem do Rio Grande do Norte, registrada em mapas do século XVI.
Cenário/sonoplastia
Inspirado nos personagens do conto, o cenário tem 22 metros de boca de cena, 12 de fundo e 9 de altura. Serragem e areia natural revestirão o palco para lembrar a areia da praia onde Chico Preto contou a história a Luís da Câmara Cascudo. João, a princesa e o imperador dos pássaros serão representados por bonecos articulados de 9 metros de altura cada um, sustentados por estruturas de ferro e revestidos com isopor e pano. Também foram inseridos no cenário elementos da cultura local, em forma de bonecos também articulados - uma ema, um galo e um boi. Duas esculturas de artesãos locais completam o cenário: uma rendeira, assinada pelo artesão Etevaldo, e um sanfoneiro, esculpido por Chico Santeiro, outro artesão local.
A iluminação será feita com 500 canhões de lâmpada par com 100 watts de potência cada uma, além de 16 movie lights e 4 canhões de luz seguidores. Três máquinas de gelo seco produzirão o efeito de fumaça necessário para o espetáculo. Outro recurso usado foram os fogos frios, importados da China, que não provocam queimadura, tecnologia dominada em Parintins.
A direção musical é assinada por Cleudo Freire, também conhecedor do folclore potiguar e músico profissional. De acordo com ele, o espetáculo priorizou o uso das tradicionais cantigas dos folguedos e das danças folclóricas. Aos instrumentos tradicionais, como rabeca, caixas, zambê e o mugunguê, entre outros, foram acrescidos instrumentos elétricos como guitarra, bateria e baixo. "Nenhum arranjo das canções tradicionais folclóricas foi mudado. Apenas acrescentamos outros instrumentos para ampliar o efeito sonoro", explica Cleudo Freire.
Sobre o Projeto
O projeto Nossa Terra Nossa Gente começou em agosto deste ano com a realização do curso Repensando a Identidade do Professor de Arte , em que 120 arte-educadores de 100 escolas municipais e estaduais do Rio Grande Norte participaram de palestras e oficinas com os mais importantes estudiosos do folclore regional. Foram priorizados arte-educadores dos 50 municípios com os mais baixos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH).
A primeira fase do projeto contou com palestras do escritor e dramaturgo Ariano Suassuna, dos pesquisadores do folclore popular Deílifo Gurguel, Ana Mae e Vicente Serejo, além de grupos tradicionais de danças folclóricas que ainda resistem com suas manifestações populares pelo Interior e Capital do Estado.
Após as palestras, os arte-educadores voltaram para seus municípios para ensinar aos alunos as danças e folguedos aprendidos no curso. Cada escola escolheu uma dança para ser apresentada na 1 ª Mostra de Cultura Popular na Educação . Serão dez danças folclóricas: Fandango, Araruna, Xaxado, Boi Calemba, Caboclinho, Coco, Pastoril, Espontão, Malhação do Judas e Congo. Cada uma delas terá a participação de mais de 300 alunos.
De acordo com a professora Isaura Amélia, o projeto de resgate e valorização da cultura continua no próximo ano com a proposta de realizar a 2 ª Mostra, na data de morte de Câmara Cascudo, dias 30 de julho, 1 o e 2 de agosto. Além disso, apresentações permanentes da dança folclórica serão fomentadas com os grupos escolares que continuarão ativos estudando e praticando o folclore nas escolas.
Outro eixo de trabalho do projeto é a publicação, em jornal local e distribuição nas escolas, de fascículos sobre temas referentes à cultura, pré-história, religiosidade, economia, literatura e folclore potiguar. São 12 fascículos envolvendo os maiores intelectuais do Estado, como o pesquisador Vicente Serejo, um dos mais importantes estudiosos de Câmara Cascudo.
Sobre Fred Góes
Amazonense formado em jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, Fred Góes, 55 anos, morou por 20 anos em São Paulo. Foi integrante do grupo Raízes da América, de 1980 a 1984, e depois participou com Tânia Alves do grupo Forró Panamericano. Voltou para sua cidade natal, Parintins, em 1985, onde fundou o jornal O Parintins, que dirigiu por 10 anos. Em 1992 começou a participar das festividades folclóricas locais, ocupando o cargo de presidente do Boi Garantido. Em 96, assinou a trilha sonora do espetáculo e, em 1999, foi eleito coordenador geral do Boi Garantido, uma das mais importantes festas folclóricas do país.
Sobre Luís da Câmara Cascudo
Escritor e folclorista, nasceu em Natal, em 1898, e faleceu em 1986. É um dos mais importantes pesquisadores do folclore brasileiro. Segundo Vicente Serejo, 52, estudioso da obra e vida do escritor, Cascudo foi o primeiro a defender o conceito de cultura popular. "Ele valorizou o folclore brasileiro inserindo-o em um contexto maior que abrange a cultura popular. Até então, o folclore era apenas uma manifestação lúdica de dança", explica Serejo.
De acordo com Serejo, a relação estabelecida com Mário de Andrade foi fundamental para o desenvolvimento da obra de Câmara Cascudo, que iniciou correspondência com o escritor modernista em 1924. No final de 1928 e começo de 1929, Mário de Andrade foi ao Rio Grande do Norte para conhecer o estado e proferir algumas palestras locais.
"A partir de um conselho de Mário de Andrade, Câmara Cascudo passou a escrever sobre folclore. Em carta, Mário aconselhava-o a deixar de escrever sobre personalidades históricas e olhar o que acontecia à sua porta", conta Serejo. Segundo ele, o livro Vaqueiros e Cantadores , de 1939, inaugura a obra de Câmara Cascudo nacionalmente como grande escritor do folclore brasileiro.
Jornalista, escritor, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e membro do Conselho Estadual de Cultura e da Academia Norte-Riograndense de Letras, Vicente Serejo conviveu com Câmara Cascudo por 10 anos. Ele define Cascudo assim: "Supersticioso, não saía de casa sem se perfumar com lavanda de alfazema, carregando um livro de reza no bolso do paletó. Fumante de charuto, era romântico e sedutor. Bom garfo, entendia de bebidas (escreveu O Prelúdio da Cachaça). Enfim, definiu a identidade brasileira na área da cultura popular".
As danças e folguedos folclóricos:
Boi Calemba: Versão potiguar do Bumba-meu-boi nordestino. Os integrantes são divididos em enfeitados e mascarados. No primeiro grupo estão o Mestre da Brincadeira, os Galantes e as Damas (dois garotos travestidos de mulher) cantando velhas cantigas do século passado. São usados a rabeca, o pandeiro e mais um instrumento de corda qualquer. O figurino é formado por coroas e palas de fitas coloridas.
Fandango: Inspirado nas aventuras marítimas portuguesas, tem como núcleo a Nau Catarineta, perdida no oceano pelo tempo de "sete anos e um dia". Com cerca de 40 marujos, o auto é representado numa barca de madeira ou de alvenaria. Os instrumentos são violão, cavaquinho e banjo. Restam apenas dois grupos desse folguedo em atividade no Rio Grande do Norte.
Caboclinho: Entre duas filas de 14 caboclinhos, movimentam-se Presidente, Matroá, Perós-Mingus, Porta-Bandeira e suas auxiliares. Os caboclinhos usam túnica e calça comprida, sobreposta por uma tanga. Completam a indumentária os cocares. Usam o arco-e-flecha como instrumento musical, que lhes dá ritmo para suas danças. Os Caboclinhos de Ceará-Mirim representam a única manifestação tradicional viva dessa dança. Os instrumentos são tambores, flauta e pífano.
Pastoril: Dois cordões de pastoras, o azul e o vermelho, cantam jornadas de saudação ao público, louvação ao messias e exaltação ao pastoril. Os intrumentos são pandeiro e violão. Marisa Monte deu uma nova interpretação para tradicional canção popular desse auto, gravando Borboleta .
Congos: Atualmente, existem três grupos de Congos em atividade no Rio Grande do Norte. Eles estão situados em Natal, na praia da Ponta Negra e nos municípios de São Gonçalo e Ceará Mirim. A dança é precedida de cantigas diversas, das quais destacam-se as louvações e saudações. O acompanhamento musical é feito com uma caixa.
Espontão: Negros da Irmandade de N. S. do Rosário dos Pretos, na região do Seridó, realizam cerimônias para marcar a festa de sua padroeira. A coreografia simula um bailado guerreiro, com movimentos de ataque e defesa. Na cabeça, um pequeno gorro militar. Espontão é a lança maior, que deu nome ao bailado. Os principais instrumentos são tambores e caixas. Os integrantes usam calças comuns e camisa branca com detalhes azuis na gola e mangas.
Araruna: O grupo, oficialmente organizado desde 1956, na Sociedade Araruna de Danças Antigas e Semi-Desaparecidas, é o único no Estado com estatuto registrado e sede própria. Apresenta-se com dez pares de dançarinos que executam números, como xote, valsa e polca, ao lado de danças tradicionais como caranguejo, bode, besouro e araruna. O acompanhamento é feito com sanfona e percussão. Os cavalheiros usam casaca e cartola. As damas, longos vestidos de saia rodada.
Coco: Numa roda de 20 participantes, de mãos dadas, girando lentamente ao som dos cocos improvisados pelo solista, um ou mais dançarinos exibem suas virtuosidades coreográficas. Exaustos de dançar, os que ficam no centro convidam os parceiros da roda para substituí-los. O acompanhamento é feito pela percussão. Algumas cantigas têm estrofes improvisadas. O Bambelô, forma sofisticada de coco de roda, diferencia-se pelo o uso do pau furado, instrumento feito com tronco de árvore, pesando de 20 a 30 quilos e 1,60 metro de altura. |