FERNANDO BONASSI DISCUTE A HISTÓRIA RECENTE
DO BRASIL EM O INCRÍVEL MENINO NA FOTOGRAFIA
Espetáculo com Eucir de Souza – apresentado na mostra oficial
do Festival de Teatro de Curitiba de 2007 – estréia dia 4 de
maio na Unidade Provisória SESC Avenida Paulista
Selecionado para integrar o elenco de 19 espetáculos da mostra principal do Festival de Teatro de Curitiba de 2007, realizada entre março e abril, O INCRÍVEL MENINO NA FOTOGRAFIA, de Fernando Bonassi, faz sua estréia nacional em São Paulo, no dia 18 de maio, sexta-feira, às 20h30, no Teatro de Câmara, no 13º andar da Unidade Provisória SESC Avenida Paulista. Com direção do próprio autor, o monólogo tem interpretação de Eucir de Souza, cenário e figurino de Daniela Garcia, preparação corporal de Vivien Buckup e iluminação de Davi de Brito.
O espetáculo integra um projeto de Fernando Bonassi de criação de um repertório com uma série de 10 “monólogos de permanência” – peças de apenas um ator e uma cena inescapável, como define o autor, no palco. A segunda e a terceira montagens já estão delineadas: Preso entre Ferragens e Uma Pátria que eu Tenho. “São peças que retratam pessoas em situações das quais não podem escapar”, adianta Bonassi.
O ator Eucir de Souza já havia trabalhado com a equipe desta montagem na peça Centro Nervoso, no ano passado, que marcou a estréia de Fernando Bonassi na direção. Por terem estudando em escolas públicas, além de outras identificações com situações na infância e na adolescência, Bonassi escolheu Eucir para ser o porta-voz de seu personagem, que, de acordo com o ator, é o próprio Fernando Bonassi.
O resultado cênico foi concebido a sete mãos – por Daniela Garcia (direção de arte, cenografia e figurino), Davi de Brito (iluminação), Eucir de Souza (interpretação), Fernando Bonassi (autoria e direção), Marcelo Pellegrini (fotografia), Marlene Salgado (direção de produção) e Vivien Buckup (preparação corporal). “Esse trabalho coletivo foi determinante para o resultado criativo da montagem, que não foi pré-concebida pelo diretor, mas por sete profissionais em torno de um texto”, explica Bonassi.
Sobre a montagem
No cenário, o espaço onde se tiravam as clássicas fotografias dos alunos na escola pública dos anos 70, no período da ditadura militar brasileira – uma escrivaninha e uma cadeira. Sobre a escrivaninha, material escolar e uma placa ou cartão com os dizeres “6.A – 13”. No piso, um mapa-múndi antigo. Ao redor, símbolos nacionais – à direita, a bandeira de um país e, à esquerda, a bandeira de um Estado da federação. Ao fundo, uma grande película, onde a imagem de uma fotografia ora se estabelece, ora se multiplica, às vezes se funde a outras. “Um álbum pronto para ser aberto”, explica Fernando Bonassi. Mas o registro fotográfico, quase uma cerimônia oficial para os estudantes do período, transforma-se num terrível pesadelo para nosso personagem.
De acordo com o autor e diretor, o personagem, posando para a foto, o menino preso na fotografia tem mais de 40 anos. Homem feito, ficou na fotografia de um tempo passado, mas não deixou de crescer, puindo e esgarçando seu uniforme no corpo progressivamente adulto. Assim, como já vai se tornando “gente grande”, sua imagem vaza para fora do uniforme escolar apertado em todos os sentidos – calça curta cinza, camisa branca com gola social, o emblema da escola costurado no bolso, meia “3/4” branca e sapato preto.
“Nesta situação absurda, o personagem, um aluno dos primeiros anos do falecido ginásio, ficou paralisado no tempo e relata o que entreviu da história recente do país”, conta Bonassi, completando que esse menino “somos todos nós, os brasileiros nascidos na primeira metade dos anos 60, que aprendemos a nos acostumar e a acumular frustrações”.
Personagem imóvel
Quando começaram a ensaiar, Eucir de Souza, Fernando Bonassi e Vivien Buckup (que assina a preparação corporal da montagem) imaginavam um monólogo tradicional. Depois, como o personagem não podia se mover, fizeram um pacto pela sua imobilidade. “Assim, sobram movimentos de olho, boca e rosto, já que o corpo fica parado. Tenho total liberdade de movimentar os olhos, pois tenho que fingir que estou imóvel”, fala Eucir, comentando que a proposta é causar um certo desconforto na platéia.
Sobre o trabalho físico do ator para explorar a imobilidade do personagem, Fernando Bonassi lança para o público o desafio de tentar enxergar quando o personagem se mexe. “Sabemos o que está acontecendo, mas não mudamos nada. Este é o retrato do Brasil.”Para Eucir, “o objetivo é tirar as pessoas da imobilidade, e propor a revolução é uma característica de todo o trabalho de Fernando Bonassi”.
Para Eucir de Souza, muita gente, no tempo de escola, viveu a situação da foto abordada no espetáculo. “Quem é dessa geração, fez essa foto, passou por esse aperto. Aos 36 anos, Eucir acredita que o menino retratado na fotografia obedeceu até às últimas conseqüências. “No retrato, ele está com 12, mas depois o tempo passa e o personagem continua no mesmo lugar aos 40 ou 36 anos. “Às vezes ele não sabe há quanto tempo obedece regras, porque ficou preso no álbum de fotografias. E é impossível não traçar um paralelo com a história do nosso País, de promessas que se renovam, de esperanças que não se concretizam. O menino da foto, que pode ser eu, você, Bonassi, resolveu ficar sentado nesse lugar esperando chegar o dia em que as promessas seriam cumpridas.
Sobre o personagem, o autor e diretor ressalta: “De um lado, ele está confortável na posição que conserva; de outro, está infeliz. Tenho 45 anos e vejo que nada mudou para a grande maioria da população, da ditadura para cá. 26 de maio de 2006, o dia do PCC, é para mim, o futuro do Brasil.”
História recente do País
Decidido a esperar pela chegada do futuro radioso anunciado pelos economistas, pelo governo de mão forte dos generais e rebelado com as condições desoladoras de sua vida em meio aos milagres do desenvolvimento em torno, o incrível menino na fotografia relata a História recente do País.
Fernando Bonassi concebeu uma encenação onde “as ações e as emoções desenham a dinâmica do espetáculo, numa espécie de confronto entre o passado e o futuro, entre a realidade histórica e as sensações sempre expressas no corpo e na fala do ator”.
A proposta do espetáculo é traçar uma “trajetória sentimental”, como define Bonassi, da geração que assistiu a tudo isso tentando girar a roda da história, mas que acabou atropelado por ela. A situação onírica em que se encontra o protagonista (“preso” numa imagem burocrática da vida escolar no início dos anos setenta, então fortemente disciplinadora e hierarquizada) representa a posição moral e intelectual de muitos que simplesmente ainda não conseguiram ajustar-se aos novos tempos.
“A sensação de impotência do personagem preso revela toda a angústia de transformação que não se realizou e que culminou no atual estado de coisas. Será possível sairmos do imobilismo e tomarmos alguma posição de destaque cultural ou histórico?”, pergunta Bonassi, que continua: “Será eterna essa sina de nossa patética experiência de sociedade de estarmos sempre a reboque das grandes conquistas civilizatórias? Seremos mais um país ou uma piada? Este é o elemento em que submerge o espetáculo, buscando estimular ou provocar o posicionamento e a reflexão de todos os envolvidos, criadores e espectadores.”
Por outro lado, além do paralelo com a repressão na história do Brasil, “o texto de O INCRÍVEL MENINO NA FOTOGRAFIA fala também da falta de ação, da frustração, da opção feita pelo personagem por deixar de fazer coisas, não opinar, não se envolver”, completa Eucir de Souza.
FERNANDO BONASSI
Nasceu em São Paulo,em 1962. É roteirista de cinema e TV, dramaturgo, cineasta e escritor de diversas obras, entre elas Um Céu de Estrelas (Siciliano); Subúrbio, Crimes Conjugais e 100 Histórias Colhidas na Rua (Scritta); O Amor é Uma Dor Feliz (Moderna); Uma Carta Para Deus e Vida da Gente (Formato); O Céu e o Fundo do Mar (Geração Editorial); 100 Coisas (Angra); Declaração Universal do Moleque Invocado (Cosac & Naify) e São Paulo/Brasil (Dimensão), ambos finalistas do Prêmio Jabuti nos seus anos de lançamento. Em 2003 é publicada a novela Prova Contrária e em 2005 o romance O Menino que se Trancou na Geladeira, ambos pela Editora Objetiva. É co-roteirista de filmes como Os Matadores (de Beto Brant); Através da Janela (de Tata Amaral); Castelo Rá Tim Bum (de Cao Hamburguer); Carandiru (de Hector Babenco - Prêmio TAM do Cinema Brasileiro para o melhor roteiro adaptado de 2003); Garotas do ABC (de Carlos Reichenbach), Cazuza (de SandraWerneck - Prêmio TAM do Cinema Brasileiro para o melhor roteiro adaptado de 2004). No teatro,destacam-se as montagens de Preso Entre Ferragens (dirigida por Eliana Fonseca); Apocalipse 1,11 (em colaboração com o Teatro da Vertigem); Três Cigarros e a Última Lasanha (com Renato Borghi e direção de Débora Dubois); Souvenirs (dirigida por Márcio Aurélio); Arena Conta Danton (com a Cia.Livre de Teatro), a encenação do fragmento Estilhaços de São Paulo, no espetáculo Megalopolis (do Theater der Klaenge - Sttutgart, Alemanha) e Centro Nervoso, no qual também assumiu a direção. Possui diversos prêmios como roteirista no Brasil e no exterior, além de obras literárias adaptadas para o cinema e textos em antologias na França, Estados Unidos e Alemanha. O romance Subúrbio teve os direitos comprados pelo Deutsches Schauspielhaus de Hamburgo. A adaptação teatral estreou no dia 04 de abril de 1998. Nesse mesmo ano, foi vencedor da bolsa do Kunstlerprogramm do DAAD - Deutscher AkademischerAustauschdienst. Desde 1997 é colunista do jornal Folha de São Paulo.
Para roteiro
O INCRÍVEL MENINO NA FOTOGRAFIA – Estréia dia 18 de maio, sexta-feira, às 20h30 horas no Teatro de Câmara no 13º andar da Unidade Provisória SESC Avenida Paulista. Concepção cênica: Daniela Garcia, Davi de Brito, Eucir de Souza, Fernando Bonassi, Marcelo Pellegrini, Marlene Salgado e Vivien Buckup. Texto e direção: Fernando Bonassi. Interpretação: Eucir de Souza. Preparação corporal: Vivien Buckup. Direção de arte, cenografia e figurino: Daniela Garcia. Iluminação: Davi de Brito. Assistência de iluminação: Vania Jaconis. Trilha sonora: Marcelo Pellegrini. Fotografia: Roberto Setton. Programação visual: André Moia. Produção executiva: Renata Katz. Direção de produção : Marlene Salgado
Duração – 55 minutos. Espetáculo recomendável para maiores de 14 anos. Temporada – De a sexta a domingo, às 20h30. Ingressos – R$ 15,00; R$ 10,00 (usuário matriculado); R$ 7,50 (estudante com carteirinha, aposentado, trabalhador no comércio e serviços matriculado e dependentes). Até 24 de junho.
UNIDADE PROVISÓRIA SESC AVENIDA PAULISTA – Avenida Paulista, 119 – Estação Brigadeiro – Fone: (11) 3179-3700. Acesso para deficientes físicos. Bilheteria – De terça a sexta das 9 às 22 horas e sábados, domingos e feriados das 10 às 19 horas (ingressos à venda em todas as unidades do SESC). Capacidade do Espaço Décimo Primeiro Andar – 50 lugares. www.sescsp.org.br