EM ORINOCO, DUAS ARTISTAS DE
CABARÉ REFLETEM SOBRE A VIDA
A direção de Dagoberto Feliz retoma os elementos fantásticos do texto em encenação não realista. A peça - que traz Daniela Carmona e Beth Dorgan - estreia no Teatro João Caetano dia 5 de junho, com apresentações gratuitas no primeiro final de semana.Em montagem intimista, Orinoco, comédia do mexicano Emilio Carballido, mescla fantasias de meninas aos medos de duas artistas de cabaré. Perdidas em um cargueiro à deriva no rio Orinoco, Mina e Fifi representam uma metáfora da incerteza da vida artística.
Duas artistas de cabaré estão em um barco cargueiro nos confins do Orinoco, o caudaloso rio que nasce nas Guianas, cruza a floresta amazônica, separa a Venezuela da Colômbia e deságua no Atlântico. Elas vão fazer um show em um campo petroleiro. Depois de acorderem, em uma manhã que poderia ser como todas as outras, as duas mulheres se dão conta de que estão sozinhas no barco. Toda a tripulação, exceto um homem - esfaqueado e caído na cabine do capitão -, desapareceu misteriosamente. A partir dessa situação, que beira o absurdo, desenvolve-se Orinoco, texto do dramaturgo mexicano Emilio Carballido. A montagem estreia no Teatro João Caetano dia 5 de junho, sexta-feira, às 21 horas, com apresentações gratuitas no primeiro final de semana (de 5 a 7).
Sob direção de Dagoberto Feliz (um dos fundadores do Grupo Folias d'Arte), as atrizes Bete Dorgam e Daniela Carmona interpretam Mina e Fifi, duas artistas decadentes de cabaré. A primeira, beirando os 50 anos, não tem mais ilusões quanto ao seu futuro. Já Fifi, mais jovem, agitada e alegre, tem sonhos grandiosos para a dupla. No barco desgovernado, Mina se conforma com o destino desastroso, enquanto Fifi busca soluções. Ao final do primeiro ato, Mina revela a verdade sobre o emprego que as espera: não se trata de um cabaré, mas sim de um bordel gerenciado por um gângster perigoso, sem nenhuma perspectiva de final feliz. No segundo ato, as tensões se agravam, rumando para um final cada vez menos previsível.
Uma encenação do fantástico
Em cena, encontram-se um barco (que às vezes se porta como uma casinha de bonecas, às vezes um palco de cabaré). "Em um barco à deriva criado por duas atrizes, o texto de Emílio Carballido pode ser colocado em cena como se fosse a metáfora dessa angústia artística de duas mulheres que se portam em cima de um palco como duas meninas em uma casinha de boneca", afirma Dagoberto Feliz, o diretor. Nesse barco/casa/palco, tudo é representação: "Não é um teatro realista, as atrizes são duas meninas que realmente estão brincando de contar essa história. Tudo é considerado como se fosse um número teatral", complementa.
"O texto parte de uma situação absurda, duas atrizes decadentes no meio da Venezuela que vão fazer um show em um bordel", afirma Daniela Carmona, atriz e idealizadora do projeto. Esse absurdo inicial dá ares de fantástico ao texto e permite aos artistas criar uma montagem menos realista: "São duas atrizes brincando de ser duas personagens e utilizando o barco como o cabaré que elas gostariam que ele fosse", diz. A montagem concebida por Dagoberto é quase uma contação de
histórias em que tudo é brincadeira, tudo é criado a partir do que as mulheres possuem no momento. "Mina e Fifi são como meninas que vestem a roupa da mãe para se transformar", brinca Daniela.
Quase tudo é manipulado pelas atrizes. Os números musicais são seus ensaios. A trilha sonora, o CD que colocam para praticar seus passos de dança. Um varal com roupas a secar se transforma numa cortina. "Muitas coisas que acontecem no palco são elas que fazem: acendem a luz, colocam a música", afirma Daniela. "Nossa escolha foi a precariedade proposital, a criação de um teatro minimalista, quase mambembe. Ao trabalharmos com pouca gente e recursos mínimos, reforçamos a cumplicidade entre as atrizes e a relação com o público. E isso tem a ver com a vida das personagens, que são companheiras de vida", explicam.
Para a equipe, a peça diz muito, também, sobre a vida do artista, sobre esses personagens que, apesar de estarem em uma comédia, são marginais e estão numa situação sem saída. "Isso é ser artista, estar nesse barco à deriva, sem saber se ele vai afundar ou ser levado para lugares incríveis. É tentar não se preocupar e aproveitar a viagem", afirma Daniela. O diretor complementa: "é uma metáfora não só da vida do artista, mas de toda pessoa que pensa estar indo pra um lugar e percebe que vai para outro, completamente diferente".
Sobre o texto
O texto de Emilio Carballido, um dos maiores nomes da moderna dramaturgia mexicana, coloca face a face fé e fatalismo, esperança e conformismo. A letargia não possui lugar no conceito de esperança defendido neste jogo de força entre a morte e a possibilidade de mudança de vida. Esperança não significa somente aguardar por algo melhor, mas sim garantir, de alguma forma, que algo aconteça, superando a amargura e pessimismo.
Para a atriz e produtora Daniela Carmona, "Emilio resgata a fé no ser humano e no futuro com um discreto charme felliniano, equilibrando-se entre a esperança e a amargura". A atriz Bete Dorgam, a melodramática Mina, completa: "A montagem da peça trará à tona esta reflexão sobre a esperança e o futuro justamente no momento em que a história impõe grandes desafios ao homem, quando a comédia e a tragédia bailam na próxima curva do rio".
A obra de Carballido é metáfora. Metáfora da situação do artista, em um barco sem rumo. Metáfora de todas as nossas vidas, quando, por vezes, nos encontramos em situações que escapam ao nosso controle. E metáfora, também, da história do México e da América Latina. Entre as conversas líricas dessa dupla de mulheres eloquentes, que tentam resolver mistérios cada vez piores em um barco à deriva, encontra-se uma relação com a luta dos povos latino-americanos. Tudo isso de forma onírica, um sonho com influências fantásticas, com citações de Marcondo e Gabriel García Márquez.
O autor
Emilio Carballido (1925-2008) foi um escritor mexicano que alcançou considerável reconhecimento como dramaturgo. Carballido pertenceu ao grupo de escritores conhecido como Generación de los 50, juntamente com figuras como Sergio Magaña, Luisa Josefina Hernández, Rosário Castellanos, Jaime Sabines e Sergio Galindo. Como dramaturgo, sua primeira peça foi Rosalba y los llaveros, que estreou em 1950. Seguiu-se então uma longa séria de peças, incluindo Un pequeño día de ira (1961), Las cartas de Mozart (1974), e seu grande sucesso Rosa de dos aromas (1986). Algumas de suas peças foram adaptadas para o cinema, como Rosalba y los llaveros (1954), Felicidad (1956), La danza que sueña la tortuga (1975), El Censo (1977), Orinoco (1984), e Rosa de dos aromas (1989).
Além de peças e roteiros, Carballido também escreveu dois volumes de contos e nove novelas e trabalhou também como diretor de teatro.
Em 1972, recebeu dois prêmios Ariel para o roteiro do filme El Águila Descalza, de Alfonso Arau. Em maio de 2002, recebeu o Ariel de Ouro pelo conjunto de sua obra, que inclui mais de cinquenta filmes, com destaque para sua colaboração no filme Nazarín, de Luis Buñuel (1959).
Para roteiro
ORINOCO - estreia dia 5 de junho, sexta, às 21 horas, no Teatro João Caetano. Temporada - de 5 de junho a 26 de julho de 2009; sextas e sábados às 21 horas, domingos às 19 horas. Texto - Emilio Carballido. Tradução - Isadora Ferrite. Direção - Dagoberto Feliz. Elenco - Bete Dorgam e Daniela Carmona. Cenário - Flavio Tolezani. Figurino e adereços - Bruna Lessa. Iluminação - Aline Santini. Trilha Sonora - Dagoberto Feliz. Duração - 90 minutos. Ingressos - Apresentações gratuitas de 5 a 7 de junho. Durante a temporada, inteira a R$ 15,00 e meia-entrada a R$ 7,50. Classificação etária: 14 anos.
TEATRO JOÃO CAETANO - Rua Borges Lagoa, 650 - Vila Clementino - Tel: 5573-3774 - Capacidade - 438 lugares. Acesso para deficientes (cadeira, rampa e banheiros). Ar condicionado. Não tem estacionamento. Ingressos na bilheteria com abertura 1 hora antes do espetáculo. Pagamento em dinheiro e cheque.
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