Celso Frateschi vive O Grande Inquisidor até 12 de setembro
O ator Celso Frateschi terá seus dias como 'O Grande Inquisidor' prorrogados por mais um tempo. A peça, que teve início dia 16 de abril, estende temporada até 12 de setembro, tem versão de Rubens Rusche para texto de Fiodor Dostoievski e cenário e figurinos de Sylvia Moreira, que ambientam a pequena cela na Sevilha do século 16, no auge da Inquisição
Já que seu prazer é "vasculhar fundo a alma e as relações humanas", o ator Celso Frateschi, sem dúvida, viverá dias de grande satisfação pessoal e profissional no palco do Teatro Ágora, a partir de 16 de abril, sexta-feira, quando interpretará o personagem central de O Grande Inquisidor. Mauro Schames contracena com o protagonista, no papel de O Prisioneiro.
O espetáculo - que tem direção e adaptação de Rubens Rusche, cenografia e figurinos de Sylvia Moreira (indicada ao prêmio Shell/2003 por Ânsia, direção de Rusche) e iluminação de Wagner Freire (que fez com Rusche Crepúsculo e foi indicado ao prêmio Shell/2007) - faz temporada às sextas e sábados, às 21h30 e domingos às 20 horas.
Adaptação cênica da parábola de mesmo nome narrada no romance Os Irmãos Karamazov, de Fiodor Dostoievski, O Grande Inquisidor é uma das mais conhecidas passagens da literatura moderna por suas idéias sobre a natureza humana e a liberdade. O texto do Grande Inquisidor não foi escrito para o teatro, é capítulo do romance Os Irmãos Karamazov. Esse capítulo ganhou várias edições literárias independentes do romance.
"Recentemente, encenadores, como Patrice Chéreau e Peter Brook, entre outros, realizaram versões teatrais da obra com grande sucesso. O que nos inspira montar esse texto nos dias de hoje é sua a pertinência poética e a contundência das questões que ele concretiza para o homem e para a sociedade do início do século 21. Talvez esta seja a sua contribuição para o teatro", diz Celso Frateschi.
40 anos de carreira
Depois de Sonho de Um Homem Ridículo (Fiódor Dostoievski, 1821 - 1881), Ricardo 3 (William Shakespeare, 1564-1616) e Tio Vânia (Anton Tchecov, 1860-1904), este é mais um personagem denso em sua galeria? "O que me cabe neste momento são os personagens densos e fortes. Sorte a minha! Foi o que fiz durante estes meus 40 anos de vida teatral, apesar de também ter participado de algumas comédias, porque ninguém é de ferro!"
Celso Frateschi credita à "altíssima potência artística do texto, sem dúvida" o grande motivo de sua escolha. Para ele, trata-se de um texto monumental em sua dimensão humana, poética, existencial, política e desafiadora. "Talvez seja o texto de maior dificuldade técnica que já encenei, embora essa sensação me seja recorrente e volte a cada grande personagem que interpreto, mas a complexidade e beleza deste texto são raras nos palcos contemporâneos."
Sobre a construção de seu personagem, Frateschi detalha: "Busco a complexidade de suas relações e suas múltiplas possibilidades, para depois sintetizar, em ações essenciais, signos poéticos que possam estimular o prazer e a reflexão da plateia. O nosso Grande Inquisidor, feliz e infelizmente, é aquilo que está em cada um de nós e que, se ainda nos resta alguma esperança, repudiamos. É mais fácil vê-lo nos outros do que em nós mesmos, mas ele está em cada um de nós, passiva ou ativamente. Essa é a grande provocação de Dostoievski".
Cena única
Sevilha, século 16, na época mais terrível da Inquisição espanhola, um homem, que é visto fazendo milagres e seguido pela multidão como se fosse o Cristo de volta à terra, é preso, torturado e condenado à fogueira pelo Grande Inquisidor, um cardeal da Igreja. Na cela, durante o interrogatório, o Cardeal faz surpreendentes revelações a esse homem que também ele supõe ser o Cristo. Entre outras coisas, explica a ele por que sua vinda é considerada um estorvo à missão da Igreja. "Aparentemente uma inocente parábola religiosa, O Grande Inquisidor é, na verdade, um discurso político, uma confrontação ideológica entre duas ideologias opostas. Acima de tudo está em debate a questão central da liberdade humana", define o diretor.
Rusche explica ainda que "a estrutura das acusações que o Grande Inquisidor faz ao Prisioneiro gira em torno da lenda bíblica das três tentações de Jesus no deserto: a de transformar as pedras em pão, a de se atirar do alto do templo e ser salvo pelos anjos e a de governar sobre todos os reinos do mundo. Ao recusar essas três ofertas, Jesus teria rejeitado as três forças que lhe teriam dado o poder de dominar para sempre a consciência humana: o milagre, o mistério e a autoridade".
Formigueiros humanos
Rusche continua: "A tese principal do Grande Inquisidor é a de que Jesus, ao rejeitar essas três tentações em nome da liberdade de fé do indivíduo, teria feito uma avaliação errônea da essência da natureza humana. O Grande Inquisidor não acredita que a maior parte da raça humana possa lidar com essa liberdade que Jesus lhe dera. Desse modo, o Cardeal insinua que, ao dar aos homens a liberdade de escolha, Jesus teria excluído essa grande maioria da salvação, condenando-a ao sofrimento".
Para pôr um fim ao sofrimento humano, o Grande Inquisidor declara que a Igreja teria aceito a terceira tentação e se prostrado aos pés do diabo em troca do poder terreno, com o objetivo de unir os homens sob uma única bandeira: a da Igreja. A humanidade passa, então, a ser governada e guiada, como um rebanho obediente, por poucos homens superiores, sacerdotes suficientemente fortes para assumirem, em nome da felicidade humana, o fardo da liberdade, escolhendo e decidindo por todos o que é certo e o que é errado.
"Os formigueiros humanos encontrados nos romances de ficção do século 20 - como, por exemplo, O Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, e 1984, de George Orwell, para citar os mais conhecidos -, com seus cidadãos infantilizados e ovinos e seus ditadores paternalistas, se originam, direta ou indiretamente, da lenda do Grande Inquisidor, de Dostoievski, que permanece como o protótipo de todos os Big Brothers da literatura e da história", conclui Rubens Rusche.
Encenação minimalista
O diretor informa que "a linguagem cênica é minimalista. Uma pequena área de encenação rodeada pela escuridão. Nessa arena, após instantes de silêncio, o discurso político do Grande Inquisidor domina a ação até a inesperada cena final".
A ênfase de todo o processo de criação está num árduo trabalho sobre o físico do ator, sua história, seu ser mais íntimo, em favor do personagem e da peça: "O ator deve impor seu personagem, ou seja, dar a ele uma verdade, uma verossimilhança, uma espessura, uma vida, uma humanidade, e, ao mesmo tempo, deve respeitar a musicalidade da partitura que ele próprio ajudou a criar e que, uma vez em cena, estará ocupado em executar". Rubens pontua que "a encenação procura unir, num mesmo conjunto, a palavra e a linguagem cênica, que devem se corresponder, contracenar o tempo todo uma com a outra".
Rubens Rusche é diretor, tradutor e produtor de teatro. Estreou na direção em 1986 com o espetáculo Katastrophè, reunião de quatro peças curtas de Beckett (Eu não, Comédia, Cadeira de Balanço e Catástrofe). Recebeu o prêmio APCA (Associação Paulista dos Críticos de Artes) em 1996 por sua encenação de Fim de Jogo, de Samuel Beckett. Foi três vezes indicado ao Prêmio Shell na categoria direção pelos espetáculos: Fim de Jogo, Samuel Beckett (1996), Ânsia, de Sarah Kane (2003) e Crepúsculo - 3 peças de Samuel Beckett (2007).
Celso Frateschi é ator, diretor e dramaturgo, tendo estreado no Teatro de Arena de São Paulo em 1970, em Teatro Jornal 1a. Edição, de Augusto Boal. Trabalhou com os principais diretores do teatro brasileiro, com Enrique Diaz, José Possi Neto e Domingos de Oliveira. Foi premiado nos espetáculos: Os Imigrantes, autoria própria, Prêmio Mambembe de Melhor Projeto (1978), Eras (1988), de Heiner Müller, Prêmio Shell de Melhor Ator, Do Amor de Dante por Beatriz, de Dante Alighieri, com adaptação de Elias Andreato, Prêmio Apetesp de Melhor ator (1996). Na televisão, participou de minisséries e novelas, como: Memorial de Maria Moura, A Muralha, O Beijo do Vampiro, Um Só Coração, Paixões Proibidas, Caros Amigos e Casos e Acasos. Na área da administração pública, foi Secretário de Educação, Cultura e Esportes do Município de Santo André entre 1989 e1992 e 1997 a 1998 e Secretário de Cultura do Município de São Paulo no período de 2003 a 2004. Também foi Presidente da Funarte de 2006 a 2008 e Secretário de Cultura de São Bernardo do Campo em 2009. É Professor de Interpretação na Escola de Arte Dramática da USP (EAD/ECA/USP).
Mauro Schames iniciou sua carreira de ator em 1991 no CPT de Antunes Filho. Desde então pode trabalhar com vários grupos e diretores de teatro, entre eles "O Círculo dos comediantes, de Marco Antonio Braz (Perdoa-me por me traíres e Cruzada das crianças), Esther Góes (Hécuba), Ariela Goldman (121023J e Narcisianas), Marcelo Lazzarato (A tragédia de Romeu e Julieta) e Antonio Abujamra (Tchecov e a Humanidade e Os Possessos).
Sylvia Moreira
Arquiteta, Cenógrafa e Figurinista gaúcha, foi responsável por importantes projetos na área de arquitetura, como a Ágora Teatro e a Galeria Olido, espaços culturais da cidade de São Paulo (SP), e os Projetos do Teatro Elis Regina e a reforma do Centro Municipal de Cultura da cidade de Porto Alegre. Em sua formação fez estágios em quatro dos principais escritórios de arquitetura de Porto Alegre e Rio de Janeiro : Claudio Luis Araujo, Roque Geraldo Fiori , Jorge Machado Moreira e Roberto Burle Marx.
Como Cenógrafa e Figurinista participou de espetáculos que lhe renderam indicações e premiações, como Ânsia, direção de Rubens Rusche; Medeia, Heldenplatz, Almoço na Casa do Sr. Ludwig e Hotel Atlântico, direção de Luciano Alabarse; Antes do Café e Tio Vânia, direção de Celso Frateschi. Seus mais recentes trabalhos foram Tio Vânia direção de Celso Frateschi ,Sonho de um Homem Ridículo direção de Roberto Lage; , O Banquete, direção de Luciano Alabarse, Antes do Café e Reconstruindo Ricardo III, direção de Celso Frateschi
Para roteiro
O Grande Inquisidor - Estreia dia 16 de abril, sexta-feira, 21h30, no Teatro Àgora (Sala Giani Ratto).- Bela Vista. Autor: Fiodor Dostoievski. Adaptação e Direção: Rubens Rusche. Elenco: Celso Frateschi e Mauro Schames. Direção: Rubens Rusche. Cenário e Figurinos: Sylvia Moreira. Iluminação: Wagner Freire. Assistente de Direção: André Piza. Temporada: sexta e sábado, 21h30, domingo 20h. Ingressos: R$ 30,00 e R$ 15,00. Duração - 55 minutos. Censura - 14 anos. Até 12 de setembro.
Teatro Àgora (Sala Giani Ratto), rua Rui Barbosa, 672 - Bela Vista. Telefone - 11 3284-0290. Bilheteria - de segunda a domingo das 14 às 20 horas. Não aceita cartão. Tem ar condicionado. Tem acesso para deficientes físicos. Não tem estacionamento. Capacidade - 88 lugares. Faz reserva pelo telefone 11 3284-0290.
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